quarta-feira, novembro 14, 2007
O BAPTIZADO DO MEU PRIMEIRO NETO
Meu querido João
Gostava que um dia, quando fores grande, soubesses como é que o teu avô materno, Luís, viu e viveu o dia do teu baptizado.
Sabes, eu e tua avó Ana Maria, tivemos a felicidade, de, quase durante um ano, podermos ver-te, todos os dias, pelo facto de teres vivido connosco, desde a nascença, tu e teus pais, na nossa casa, em Algés.
Depois, por causa do emprego, tiveram de vir para casa deles, em Ovar. E tu, claro, foste com eles.
Custou-te um pouquinho, porque já estavas habituado, sobretudo à tua escolinha, aqui em Algés. Também gostávamos muito dela. Tinhas lá os teus amiguinhos.
Os teus pais, depois de procurarem o que havia de melhor, encontraram, perto de casa, em Ovar, uma escolinha muito bonita, onde, já gostas de andar.
Ora, nos dias 17 e 18 de Setembro de 2004, que foram 5ª e 6ª feira, não foste para a escola. Passaste-os, todos, no meio de nós. Sabes porquê?
É que, de 5ªfeira a Domingo, houve uma festa muito linda na nossa família.
Especialmente, no dia do teu Baptismo. Este foi no Sábado, na igreja de São João do Monte.
A mesma onde o teu pai, o teu avô paterno e tios, e, se calhar, o teu bisavô Josué, foram baptizados, há muitos anos.
Estava um dia muito bonito. Um lindo dia de sol. Dos mais lindos que já eu vira. O céu estava muito azul. Parecia que não tinha fim.
Para mim, que vivo na cidade, o ar era tão puro e leve que os pulmões me pulavam no peito, de contentes.
À volta, tudo era verde, dos campos e das árvores. Muitas e grandes. Ouvia-se o chilrear alegre de muitos pássaros, a voarem numa brincadeira louca, dum lado para o outro.
Vieram muitas pessoas da nossa família, as que puderam, porque gostam muito de ti. De muito longe e de perto.
Da Póvoa do Lanhoso, lá no norte, vieram o tio-avô Rogério, que é meu irmão, e a mulher, a tia-avó, Clotilde, mais as duas filhas, Celina e Mariana.
Da Lixa, veio o primo Luís Filipe e a mulher, chamada Helena, com um priminho mais novo que tu. Muito pequenino. Tinha nascido havia um mês. Foi o seu primeiro filho. Chama-se David. Foi nesse dia que o vimos pela primeira vez.
Sabes? Fiquei muito contente quando lhe peguei ao colo, ele começou a sorrir-me, com a carinha toda. Nunca mais esqueço. Parecia que me estava a conhecer, como sendo o irmão da sua avózinha, Delfina, minha irmã, que morrera e tanto gostaria de o ter conhecido. Se eu já estava feliz, ainda fiquei mais.
Vieram muitas mais pessoas. Amigos de teus pais e avós. Eu e a avó Ana viemos de Lisboa. A tia Leonor, tua madrinha, e o tio Virgílio, vieram de Berlim, na Alemanha. O tio Luís Daniel veio de Manchester, na Inglaterra. De Almada, veio o tio Paulo Alexandre que é padre, especialmente, para te baptizar.
Ainda de Lisboa, uma tua prima-avó, prima da avó Ana, a Elisabete, ou Bette como lhe chamamos. É como se fosse irmã da avó Ana. Não teve filhos. O marido, chamado Zé, não veio porque tem uma maneira especial de pensar, sobre estas coisa de Deus. Um pouco complicada.
Ela gosta tanto de ti como se fosses neto dela. Deu-te uma máquina fotográfica de brincar. E mais qualquer coisa que eu não vi. Gostaste muito.
Ah! Já me esquecia dum outro que já existia, ia chamar-se também, vê lá a coincidência, David, e ainda não nascera. Estava na barriga da mãe, que é a tua madrinha Leonor. Esperava-se que nascesse no começo de Fevereiro de 2005. Como aconteceu. Em Fevereiro, como tu nasceste.
De Aveiro, veio a dona Milú e o marido, sr. Mendonça. São pais de uma grande amiga da tua mãe. A Mónica. Andaram na mesma escola de bébés e depois, na escola primária, em São Bernardo.
A Mónica teve muita pena. Não pôde vir porque estava a viver em Nova Yorque.
Vieram de Lisboa, a drª Fernanda, colega de trabalho da avó Ana e o marido Carlos. E tantos outros que gostavam de ter vindo. Não puderam.
E estava toda a tua família que mora nessa freguesia de São João do Monte.
Os teus lindos bisavós, Josué e Margarida. Os teus avós Amadeu e Aurinda. Os teus tios, Miguel e Célia. Os teus priminhos mais velhos, Rafael e Diogo. E muita gente amiga, lá da terra.
Juntámo-nos todos no adro da igreja de São João do Monte a conversar, muito contentes, porque já havia muito tempo que não nos víamos. Alguns nem se conheciam ainda.
Depois chegaste tu, com os teus pais. Saíste do carro pela mão da mãe. Vinhas muito bonito. Roupa nova, claro, a estrear. Oferecida pela madrinha Leonor.
Um pulóver azul, leve, uma camisola branca, umas calças compridinhas, creio que acinzentadas.
Trazias um cavalinho castanho de plástico ao colo, que a avó Any te dera na véspera. Chamavas-lhe o "ainho"( o cavalinho). Nunca mais o largaste, mesmo durante o baptismo.
Deste logo com o cão de que mais gostavas- o Môsy - e foste correr atrás dele. Ele escapava-se e tu, com toda a autoridade deste mundo, chamavas
- MÔOZZZI!...CÁÁHH!...
Há muitas fotografias de tudo, tiradas pelo tio Luís, onde apareces. Aí podes ver que foi como eu digo.
Às tantas, apareceu, risonho, à porta da igreja, o tio Paulo, vestido com as vestes brancas de padre, paramentado, como se diz. Ao lado, estava o Senhor Abade da freguesia, Sr. Padre António. Também com cara de contente.
Chamaram-nos para a cerimónia do Baptismo. Juntámo-nos todos em frente às portadas grossas de madeira da igreja. Estavam só entreabertas. Depois, iam escancarar-se, de braços abertos, para te receberem.
À frente estavas tu, ao colo da mãe. Que linda ela estava!...(É a minha filha Sandra) O teu pai, ao lado, e, de cada lado, os padrinhos. O do lado do pai, o Sérgio, a tia Leonor, do lado da tua mãe.
Quase toda a gente estava de roupa novinha a estrear. Por tua causa. E em tua honra.
O Padre Paulo chamou-te pelo nome. João. Tu olhavas para ele um pouco espantado. Nunca imaginaras vê-lo assim. Ele, sorrindo e fitando-te com ternura, para te sossegar, disse:
- Sou o tio Paulo. Não tenhas medo.
Depois perguntou aos pais o que é que eles queriam da Igreja. Estes responderam que queriam que fosses baptizado.
- Porquê? - perguntou o Sr. Padre.
- Porque queremos que o João seja e viva como um cristão, como nós - filho de Deus.
Depois houve mais perguntas aos padrinhos e recomendações sobre as responsabilidades que estam a assumir, em teu nome. No fundo, estavam a fazer por ti, o mesmo que outros fizeram por eles, quando eram pequeninos.
Os senhores Padres, em nome de Jesus, aceitaram o que eles pediam. As portas abriram-se e mandaram entrar toda a gente para a igreja.
Fomos todos em cortejo, alegre, até ao altar, lá em cima. A igreja estava muito bonita. Cheia de flores. Muita luz entrava pelas janelas, criando um ambiente celestial.
De novo, diante dos senhores Padres, tu ao colo da Mãe, com teu Pai e padrinhos, de cada lado, assistias a tudo, com esses olhos grandes, serenamente, mas curiosos. Pareciam perguntar:
- mas, que é que se está a passar à minha volta?...Via-se que te sentias no centro de tudo. Sem vaidade, aparente, muito naturalmente. Sempre com o teu "Ainho" castanho na mão, contra o peito.
Aceitaste muito bem a água fresca que o sr. Padre de deitou na cabeça. E as unções de óleo, na testa e nas costas.
Depois deram-te uma vela acesa para as mãos. Deixaste que as mãos dos pais e dos padrinhos te cobrissem as tuas. O pior foi quando te quiseram tirar a vela. Aí, choraste.
- Essa de dar ... e voltar a tirar!...A vida é assim!...
Ficaste sem a vela e choraste. Foi então que os teus olhitos, chorosos, correram tudo, à procura de quem te ajudasse. Olhaste para mim. Para a avó Ana, para os avós todos. Ninguém te pôde valer. Foi aí que a avó Ana, com a licença do sr. Padre Paulo, te foi pegar - já estavas baptizado- e te levou para o fundo da igreja. Entretanto a missa seguia, no altar.
Houve leitura de duas passagens da Bíblia, pelo teu Pai, saídas da história do profeta Ezequiel. Alusivas à força e ao significado do baptismo. Ainda hoje as podes tu ler...
A seguir, foi lido o Evangelho. E o tio padre Paulo, a seguir, fez a homilia. Disseram as pessoas que nunca o tinham ouvido, que foi uma linda homilia...Como nunca tinham ouvido. Eu também achei. Mas eu não sou de confiança...
No final, houve uma salva de palmas em tua honra. Pela alegria de também já seres um dos nossos, baptizado. Mais um cristão.
Enquanto fores pequeno, segues o caminho que teus pais quiseram, em teu nome. Como os Pais querem sempre o melhor para os seus filhos, está tudo bem. Eu acho.
Quando cresceres, tu mesmo, vais poder continuar este caminho ou escolher outro. Aquele que entenderes ser melhor para ti. Tudo certo. Também foi assim connosco.
Eu, por mim, continuei no mesmo caminho, com muitas dúvidas e algumas crises, de vez em quando, e não estou arrependido.
Ter fé em Deus, que quer ser nosso Pai, em seu Filho Jesus, que morreu por nós e ressucitou.. .acho que é o caminho mais seguro, nesta vida, cheia de alegrias e, também, de problemas.
Depois, fomos todos para casa dos teus avós, Amadeu e Aurinda, lá mais em cima.
Eles empenharam-se em fazer cá um banquete!...Ó que banquete!...Tu lambeste-te todo com o bacalhau à Zé do Pipo. Eu também. Todos nós. Os mais crescidos regalaram-se com chanfana que tua avó Aurinda é mestra em preparar, com a ajuda das suas primas. Que delícia!... E o vinho, trazido da adega de um lavrador da região....esse correu e escorreu nos copos...até o céu escurecer.
As pessoas falaram de coisas sérias e coisas menos sérias, como crianças. Eu fartei-me de rir à conversa com o Padre Paulo, com o Padre António, o Sr. Mendonça e da dona Milú. Os que ficaram à minha beira.
A avó Ana ficou à beira do casal amigo, a drª Fernanda e o marido, e da prima Bette, na mesa em frente.
De vez em quando, eu corria as mesas todas a ver como iam as coisas. Tu estiveste ao topo da mesa, com os pais e padrinhos. Comeste bem. Principalmente, dos bolos feitos por uma tua tia, na sua pastelaria, em Águeda.
Esta e o marido não vieram por causa da religião em que acreditam. São jeovás...Esta religião não lhes permite que tomem parte em baptizados doutras religiões...Um dia vais saber como estas coisas são.
Os crescidos, às vezes, complicam tudo. Eu penso que seja qual for a religião, não deve haver destas proibições. Mas, são de respeitar.
Estivemos umas horas esquecidas, ali sentados, à mesa. Claro que, cedo, tu quiseste ir à tua vida. Lembro-me de ter visto todo contente, ao colo do tio Miguel. Ias ver as vaquinhas e o "pôco"...
Mas correste o colo de toda a gente.
Apetecia ter ficado ali o resto da vida. Não podia ser. Os que eram de longe tinham de partir, se possível, ainda com sol.
É que descer a serra do Caramulo, tem que se lhe diga. Vê lá se consegues contar-lhes as curvas. São tantas. Eu tentei e não fui capaz. Pode ser que quando fizeres a Primeira Comunhão ou o Crisma, já crescido, eu consiga. Com a tua ajuda.
Nunca mais esqueço aquele dia 18 de Setembro de 2004. Um dos mais belos de toda a vida. Por certo, o mesmo, para os teus pais, avós e todos os que lá estivemos ao redor e por causa do teu Baptismo.
Almada, 20 de Setembro de 2004
15h e 28m
O teu avô Luís
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2 comentários:
Muito bonito... todos deveriam ter esse carinho e essa visão do dia do Batismo!
Hoje em dia tantos não lhe dão essa devida importância!!
Paz e bem!
Que linda recordacao,escrita por um avo tao carinhoso.....e algo que o teu neto guardara para sempre no seu coracao,com muito amor e gratidao!!!
God bless you
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