terça-feira, novembro 06, 2007

O MELRO DO FERREIRO



O senhor Artur ferreiro
tinha um melro.
Era preto,preto
com um bico
bem amarelo.

Que bem cantava
aquele melro!

Assobiava
o dia inteiro,
na gaiola velha,
pendurada,
na trave defumada
do telheiro,

Enquanto o martelo
malhava o ferro,
em brasa,
na bigorna
de ferreiro.

Como cantava
aquele melro
tão negro e amarelo,
tão matreiro!

Do raiar da madrugada
ao cair das horas,
tantas quantas,
de trabalho a forja
tinha o dia!...

Thum!...
thum!...
thah!
Thum!...
Thah!...

Donde lhe vinha
tão fino canto,
o preto rico,
das suas penas
e o amarelo
d'oiro
daquele bico?...

Comia só,
farelo seco,
couves cegas,
e bebia
água suja
da dorna quente,
ao pé da forja!...

Prriu!...
piu!...Piu!..
Triu!...tiu...
piu!...
Gliu!...gliu!...
gliu!..

A Laurindinha
queria tanto
àquele melro
como ele a ela,
e ao derradeiro filho
que ali tinha!...

De manhãzinha,
lá estava o melro,
tão contente.

Em festa permanente,
aos trinados,
radiante.

Mais um dia
que ali vinha,
p'rá sua dona
já velhota,
e para o herdeiro
daquela herança,
defumada
e fumarenta,
que era a forja
de ferreiro.

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