domingo, fevereiro 03, 2008

Gente Simples...






Num restaurante vulgar, duma esquina de Algés, todo envidraçado sobre a praça larga, aonde páram táxis e arribam autocarros dos arredores, e onde cheira a castanhas assadas, duma locomotiva a carvão, de caixa aberta, tudo a fingir, há muitos anos, são os mesmos os empregados que lá trabalham.

Calça preta e camisa branca, de manga curta. Os mesmos gestos, nos mesmos passos, mil vezes repetidos, e, apesar de tudo, sorridentes. Chegue eu bem ou mal disposto.

Por dentro do balcão corrido, na sala da frente, por onde, da cozinha, tudo sai, gira altivo e compensado, aquele que é patrão. Ainda tem ar de mocetão e bem serrano. Ou é um transmontano rude ou judeu fechado...
Na cabeça dele, só lhe vejo os patacos a correr, taco a taco, a somar. Do balcão para a gaveta que só ele abre, a tilintar, e da gaveta para o papo. Anafado. De patrão.

- Saia meia de caril!...exclama cá de fora um empregado.
- De gambas ou de frango?...não sou bruxo. - resposta do patrão, em tom mordaz.
- De frango...e uma meia de "borba tinto"- retorquiu sereno o empregado.

A sala de trás, a mais selecta, pouco a pouco, vai enchendo. Pelo à-vontade, e porque conheço algumas delas, a maioria são clientes do costume.

- Sente-se onde quiser.... Só até à meia-noite!...Depois é que não - gracejou o empregado.

- Um bitoque de vaca.- pediu a cliente.
- Bem ou mal passado, ou, assim assim?
- Bem passado- foi a escolha. Ah! E um copo de vinho tinto. Do da casa.

Em menos de um quarto de hora, a refeição da cliente estava concluida.
- Está tudo?- perguntou afável o empregado.
- Está tudo. Falta só a conta.- foi a resposta.



DE novo, e a novo cliente, um doutro empregado explica:

- Temos caril de frango e de gambas...feijoada à transmontana. Pronto a sair. O resto é tudo coisa duns minutos.


E assim, tudo se faz, como para si, a bem da casa. Afinal, dali é que sai o salário, magro, ao fim do mês...o pão de cada dia para os filhos e para a mulher....

Pela praça ampla, frente ao restaurante, passaram e passam caras, sempre diferentes, jovens e velhas, vão sorumbáticas, a caminho do comboio, entre o Tejo e Cascais. Vão e vêm...

E a florista, a mais vizinha, será dona do quiosque, ali ao pé, ainda não parou de varrer o terreiro, a todo o redor...Mirando bem...quem passa e quem vem.
O tempo está de cinza....ainda não vendeu sequer, um malmequer!...

Há tantos anos que daqui vejo a mesma vista. É a vida, sempre apressada, alegre e triste, no dia a dia, sempre a correr. Esteja eu longe, ou esteja ao pé.

A próxima será quando voltar a trazer a minha mulher ao costumeiro e sadio almoço de convívio das velhas companheiras, do emprego ali ao pé.

Os comboios cinzentos e amarelados, não páram de chegar à estação. Andam do Cais do Sodré até Cascais, com o Tejo, mesmo ao lado, a correr para o mar.

- Uma de caril de gambas ...repete, de novo, em voz alta, o empregado....tão alto que o patrão oiça sem o azo de ser mordaz!...

Algés, 1 de Fevereiro de 2008- É meio dia e meia...
Joaquim Luís Mendes Gomes

6 comentários:

Dennys Silva-Reis disse...

Muito legal sua história.... nosso cotidiano tem coisas que muitas vezes nem percebemso , mas quando lembramos vemos o quanto aquilo foi, é e será importante pra nós nem qeu seja pra recordar de um lugar, algo ou alguém....

Tenho 2 blog também se puder visite....

http://reysdennys.blogspot.com/

http://ointercessor.blogspot.com/

abraços

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes disse...

Eh! Pá!...(como nós dizemos por estas bandas...) Gostei muito de me teres visitado e do que dizes... A vida é feita de pequeninas coisas como esta...Obrigado pelo teu pequeno, para mim, muito significante gesto...
Claro que vou visitar-te nos teus dois blogs e ...de seguida...direi de minha justiça...
Um grande abraço aí para o Brasil
Joaquim

Dennys Silva-Reis disse...

Obrigado pela visita... volte semple que quiser.... Não sei do Baião não......

abraços....

Paulo disse...

Um quotidiano agitado - não pela ASAE - mas, presumo, pelo caril.
Abraço

Teresa Calcao disse...

Es um excelente contador de historias.....adoro ler-te!!!!
Abraco terno

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes disse...

Obrigado Teresa oela força que me deixas!...
J