domingo, fevereiro 24, 2008
Para lá da vidraça...
Nada mais trivial do que um almoço, num restaurante, envidraçado de Algés, mesmo em frente da Praça.
- Hoje, quero uma meia de caril de frango e meia de Borba tinto. - Foi o meu pedido depois de escolher a mesa da janela.
Para lá da vidraça, sobre o Largo, vejo, na cabine telefónica pública, semi-protegida da chuva e do sol, que está alguém a falar, não sei há quanto tempo, antes de eu chegar.
Por acaso é um rapaz preto. Corpulento. Bem vestido. Fato escuro e gravata rubra, em camisa azul às riscas.
Deve falar para África. Os olhos brilham-lhe tanto como os dentes, sempre brancos, como só eles têm...
Faz muitos gestos, com o corpo todo. Este também fala, ginga e bamboleia, se vira e revira, se eleva e se abaixa, como só eles fazem. Fala animadamente, como se estivesse no meio dos seus irmãos, debaixo dos embondeiros,familiares, no largo amplo das cubatas ou da tabanca.
Aquela conversa, sempre viva e acalorada, dum entusiasmo que nos estonteia, durou e ultrapassou todo o meu almoço.
Entretanto, duas gruas amarelas, elegantemente projectadas para o alto, céu acima, para lá do viaduto, rodavam silenciosas, à vontade de quem no chão, lhes comandava os movimentos.
Um cursor minúsculo ia e vinha sobre as calhas, lá no alto, da haste longa, deslocando, sem qualquer esforço, todo o material suspenso, da obra em crescimento.
Na mesma cabina pública, onde falara o rapaz preto, corpulento, já ausente, entrou agora uma jovem, branca.
Tem madeixas louras, à mistura com um longo e liso cabelo preto. É daquele tipo moderno, de moça estereotipada, com que nos cruzamos, repetidamente, e abundam, por praças e passeios.
Está semi-sentada no tamborete exíguo. Só ela sabe com quem pegou conversa...Um pé, de fino sapato agudo, está-lhe assente, rés-vés, no chão. A outra perna, revestida a jean, em azul desbotado, bamboleia-se no ar, sem poisar.
Enquanto as linhas ténues do rosto jovem se vão modificando, matizando-o, ora alegre, ora tristonha, às vezes dengosamente, sublinhando as mensagens que vão e vêm, como a bobina, que num tear, vai tecendo a teia que o coração lhes dita...
Ao mesmo tempo, na passagem inferior para o outro lado da linha férrea, num e noutro sentido, já passaram tantos vultos, de gente como nós, que vão e voltam, uns mais lentos, outros mais apressados, conforme o destino nos vai puxando...
A jovem branca de madeixas louras, em cabelo escuro, ainda conversa, na cabine em frente.
- O almoço não estava mau, depois da bica curta do costume - penso cá para comigo.
- A conta, por favor! - exclamei para o ar.
- Aqui a tem! - respondeu afável e pronto, como sempre o empregado atento. Sempre o mesmo.
- Até amanhã, se Deus quiser!...repetimos, agradecidos, um ao outro.
Algés, 16 de Fevereiro de 2008
( foi antes da cheia medonha e lamacenta
que havia de cair por aquelas bandas...no dia seguinte )
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2 comentários:
Trivial,mas muito bem escrito...
O Bico de Pato agradece...a sua atenção para esta trivialidade... de todos os dias.
MG
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