quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Como tudo mudou...
A vida, na sua maioria, é feita de coisas triviais...Aquelas que nos vão acontecendo cada dia. Acontecem por acontecer. Ou por ter de ser.
Por exemplo, abrir a porta da rua, descer a escada ou tocar o botão do elevador, cada manhã, para ir para o emprego.
É a primeira banalidade, sempre igual, que soma à mesma do dia de ontem e ao de antes e por aí fora.
Até ao primeiro, (quem não se lembra desse dia) em que, ao mesmo tempo, alegre e receoso, e que outros sentimentos mais a roer-nos cá por dentro, quando, pela primeira vez, saímos de casa para o primeiro emprego.
As mais das vezes, (já o era naqueles tempos) não será aquele que se escolheria, se nos fosse dado escolher.
Para mim, ainda bem, que foi como foi. Não tive escolha. Foi há uns bons anos.
O meu sonho, então, era vir a ser professor de liceu. Para passar a vida à volta de livros, poder lidar e conhecer as levas de alunos, sempre diferentes, que vêm cada ano. Poder ser destacado de terra em terra, com direito a férias, três vezes no ano, poder embrenhar-me no dia-a-dia, de cada cidade, (só nas cidades havia liceu) como sendo eu um dos seus habitantes.
Cada cidade é diferente, tem o seu ritmo, as preocupações, aspirações, crenças e valores, costumes, muito próprios.
São diferentes e especiais,em cada uma delas, o céu e a noite, a manhã e a tarde, os arredores, com rio ao pé ou não, um jardim, um monte, um castelo, o mar, as fábricas que há sempre ou não há, as lojas...as casas e...toda a tanta coisa banal que risca, que pinta este quadro genial que é a vida livre, de cada um de nós!...
Era o que eu, realmente, nesses tempos longínquos, desejava. E isso, parecia-me, esses horizontes só os poderia encontrar na carreira de professor dum liceu. Viver assim como viveu um Virgilio Ferreira ou o José Régio. Deambulando...
Como tudo haveria de mudar!?...Jamais o imaginei!...
Mas não. Não foi para me dirigir para um liceu como professor, que eu abri a porta, na manhã dum certo dia final de Novembro. Lá muito atrás.
Chamei o elevador do 4º andar do prédio alto, moderno, em que alugara um quarto, por 1200 escudos ao mês, roupa lavada e alimentação, duma rua com nome, num bairro de Lisboa, com nome, e saí ao encontro do emprego, que o acaso e a necessidade de subsistir, por mim mesmo, me haveria de pôr à frente.
Tinha regressado da guerra ultramarina, meses antes. Os tostões amealhados como oficial miliciano, de si, escassos, cada dia iam ficando mais por baixo. Eram a única base de sustentação.
A minha situação tornava-se ameaçadora.
Crescia, mais e mais, até fazer doer, a ansiedade de receber, enfim, a carta dum banco ou seguradora onde me inscrevera, à toa.
À toa, não. Nada acontece por acaso. Lembro, como se fosse hoje, aquele momento, no átrio solene da sede do Banco de Portugal, na baixa, em que, a pessoa a quem fora recomendado, me disse com ar afável , mas compungido:
- Olhe, meu caro amigo. Enquanto espera resposta daqui, pode demorar...corra ao Calhariz, à Caixa Geral de Depósitos, onde eu sei que precisam e estão a admitir gente como você...
Eu não conhecia, ainda, Lisboa. Muito menos, se o Calhariz ficava longe ou perto.
Desci a correr. Chiado acima. Minutos depois, estava na secretaria do Pessoal, diante do Sr. S...
Era um homem gorducho. Vermelhusco. Rosto bem disposto. Meia idade. Umas mangas de cetim pretas enfiadas pelos braços fora, cingidas acima dos cotovelos.
Vá lá! Estendeu-me a mão para me cumprimentar, olhos nos olhos!... Gostei dele, à primeira vista. Mais tarde, iria ver que aquela boa impressão estava certa e justa.
Deu-me uns impressos para preencher. Nome. Sexo. Filiação. Naturalidade e residência. Habilitações literárias, situação militar, e, lembro, um desses impressos, com mais uma questão...que parecia não vir nada para o caso...mas que tive de responder, afirmativa e expressamente. Uma condição, frontal, mas essencial.
- Traga os documentos comprovativos, quanto antes. - Vá descansado. Nós depois, chamámo-lo.
E assim foi...na manhâ daquele dia, essa saída não foi trivial...Foi nos fins do remoto mês de Novembro de 1966.
Em vez do professor de liceu, que seria, hoje, deambulatório, à força, esvaziado, as mais das vezes, da dignidade, elevada e inquestionável, de que, naqueles tempos, disfrutavam, fiz-me um simples jurista duma Instituição de crédito que se afirmou grande e sólida e me ajudou a criar os meus quatro filhos e a pintar o quadro real da minha vida livre, de disfruto.
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1 comentário:
Me lembra aquela passagem que diz que o homem faz planos, mas a vontade de Deus se realiza. Muitas vezes essa mudança de planos nos causa tristeza, mas prefiro acreditar que foi para meu bem, pois "todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus"!
Grande abraço!!
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