quarta-feira, abril 11, 2007

O carteiro da minha infância

Chamava-se
senhor Bastos.

Homem de meia idade,
gorducho,
da cabeça aos pés.

Cabelo grisalho,
sob um boné de pala,
a dizer com uma farda,
a valer:

Casaca,
de corte fino,
muitos botões de prata;

calças largas,
de cor cinzenta,
em cotim da tropa.

Botins, altos,
um cinturão forte,
em couro preto,
sempre a luzir;

um bornal imenso,
e manso,
de couro grosso,
da cor dos bois...

Dava à vontade,
para o correio todo
da minha aldeia...

Uma corneta dourada,
a tiracolo,
bem cuidada,
sempre a brilhar.

- É p'ra poupar...
assim mandava
Salazar.

Certeiro,
pelas onze da manhã,
lá aparecia
o senhor Bastos,
ao fundo da costeira,
sobre a bicicleta,
inglesa,
toda preta,
um selim,
largo,
a condizer...


Com aqueles beiços,
grossos,
colados ao funil
do instrumento,
arrebitado,

das bochechas,
retesadas,
fazia dois balões,
tintos...

Arrancava cá
uns dois toques
cavos,
de barítono,
bem timbrados,
a chamar as namoradas
todas
lá do lugar...

Era a hora
da saudade...
dos amores,
perdidos
pelas cidades,
e na vida militar...

Era a hora
da cartinha,
fina e leve,
verde-rubra,
de avião,
tão sonhada...

dos mil maridos
que há tanto,
por dura sina,
embarcaram
prás Áfricas...
ou p'ró Brasil...

Às vezes,
lá vinha azedo,
um postal camarário
um aviso
da Fazenda,
da GNR
ou Tribunal...

com as derramas,
e o velho fisco
p'ra pagar
ou conversar!...

À alegria da chegada,
seguia-se o silêncio
para ouvir...
quais os nomes,
afortunados,
pela lembrança dos amores...

Depois,
era a debandada,
uma a uma,
com lágrimas,
à mistura,
de dor
e de alegria...

E os que não tinham nada
levavam a esperança
da vinda do senhor Bastos,
com o bornal cheio,
de correio novo...
Àmanhã,
à mesma hora...

1 comentário:

Teresa Calcao disse...

Ola,
Recordacao comum a muitos de nos,e so mudar o nome ao senhor Bastos.........
Beijinho