segunda-feira, janeiro 15, 2007

A mulata e o cão maior que a dona

Sobre o paredão, à borda da praia, ao balcão de madeira, uma mulata, bebe, de pé a terceira bica da manhã.
Aos pés dela, um canzarrão amarelado, de cabelo farto, bem lavado, jaz deitado à sua espera.
Olho-o desconfiado.
- Esteja à vontade. É muito manso - garante-me ela muito solícita.
- Não se preocupe, gosto de cães - respondi.

Sentei-me na mesa perto do cão, não sem lhe deitar um golpe d'olho e também à dona.
De olhar matreiro e disfarçado, ela acabava de rir-se comprometida.
Depois, foi a vez de pedir a minha bica, no balcão, ao lado dela.
- Quer açucar ou adoçante? - perguntou a dona do café.

- Ai, o adoçante faz mal - apressou-se a vizinha a prevenir.
Apenas lhe sorri, com um ligeiro ar de concordância.
- Com açucar, se faz favor. - pedi à dona do café.
Recebo-o a fumegar e dirijo-me cuidadoso, para a mesa.
Enquanto leio a Visão da semana, elas ficam ambas a cavaquear. O rapazola, de pincel em punho, vai pintando o tecto do pequeno bar. Vem aí a época da praia.

Entretanto, outra freguesa costumeira da manhã, chega com seu cão atrelado. Os cães pégam-se numa ladroeira irracional. As donas apressam-se a apagar aquela labareda e repõem a ordem. O que chegou, distribui uma mijinha no sítio certo,no canto, à entrada do bar. O maioral não se opõe. Faz-se silêncio. Apenas,o mar não se calou. Nem as gaivotas , impacientes que se vá embora a maré-cheia. Deliciosa e bendita a crónica de Lobo Antunes desta quinzena...como são sempre. Um dia, vai fazer falta este lobo...



Paredão da Caparica, 2006

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