segunda-feira, janeiro 22, 2007

OS DENTES DO ENGAÇO

VARZIELA

1

Já não existe a casa amarelada de dois andares onde eu nasci. Hoje, apenas está lá o sítio e o plátano que lhe dava sombra.
Não era de meus pais. Era arrendada. Ao senhor Alvarinho dos Moínhos. Uma bagatela de renda. Aí, uns cinquenta mil réis ao mês...
Apenas o primeiro andar estava arrendado. Com direito a um bom quintal, com poço e tanque, nas traseiras.
Subia-se para ele por uma escada de granito, a partir de um cancelo em ferro forjado baixo, tinha sido vermelho, em tempos.
Os degraus eram altos e as pedras ainda estavam rugosas. Contei-os todos, um a um, era eu menino, num trambolhão, sem fim, que me ia mandando para os anjinhos.
Havia um corrimão, também em ferro a proteger quem subia ou descia. E fazia jeito, principalmente nas noites de inverno. Não havia iluminação pública na estrada nacional que lhe passava adiante.
Por isso, de inverno, aquela protecção era muito útil aos fregueses do meu pai que era alfaiate, quando se iam embora, com o fato novo ao colo, depois de uma longa espera a que já se habituavam, em serões que não tinham fim. Por altura do Natal.

Por baixo, tinha uma garagem a todo o comprido e à largura do andar que suportava. Tinham acesso a ela para um ou outro arrumo transitório, mas não o direito a usá-la.
Por isso, foi muitas coisas. Que me lembre, e para meu regalo, até fábrica de pregos de carpinteiro.
Como tinha um alçapão fundo ao comprido, tapado por tabuões justapostos e enegrecidos, em pinho, com escadinhas de acesso, mesmo ao meio o chão em cimento, terá sido também, oficina de carros.

Não sei de quem era o carro, mas houve um, grande, que fez as minhas delícias furtivas, horas a fio, às escondidas de meus pais. Enquanto se manteve ali, estacionado. Tinha uns grandes faróis, cá fora, em cima dos guarda-lamas da frente, pareciam gigantescos olhos de boi. Euma corneta de borracha, tipo de clister. Nessa não tocava eu...
Entrava-se subindo um espaçoso patim em metal reluzente e depois vinham uns estofos avermelhados de couro com cheiro a sapateiro. Um guiador preto, de tão largo, esgotava-me o comprimento dos meus braços. Só de joelhos eu conseguia vista lá p'rá frente.
Sem dar conta, um dia deixei de o encontrar lá. Por muito tempo, fiquei mais pobre, sem a magia daquele meu castelo de sonhos.

Ao lado da nossa casa havia outra, geminada, como hoje se diz. Também do mesmo senhorio e arrendada ao senhor Manel Cunha. Era sapateiro. A oficina ficava na loja.
À socapa dos meus pais, porque não me deixavam ir para lá, nunca soube a razão, via-os fazer, de fio a pavio, as botas e sapatos. desde o corte até ao fim.

A mulher, chamava-se Quininha, uma mulheraça, de faca em punho, afiada que nem uma lanceta, era ela quem talhava e fazia o corte das peças de cabedal e, a seguir, as cosia, desembaraçada, na máquina de costura, de marca singer, mais robusta que a do meu pai.

Eu gostava deles. Nunca me regatearam um só punhado de goma de farinha triga, com que colavam as solas, que eu pedisse para os meus papagaios de papel. Ou as tiras de borracha, para as minhas fisgas de ir aos pássaros.

De vez em quando, levantava-se para lá uma trovoada de raios e coriscos, entre ele e a mulher. Parecia o fim do mundo.

Um dia, também eles desapareceram.

E ainda bem. Foi então que chegou, vindos de fora, outro casal, com dois filhos, muito mais velhos do que eu. Por isso não me lembro agora dos seus nomes. Dizia-se que vinham dos lados de Coimbra. De Poiares.
De facto, o falar era muito diferente do nosso. Soava cantado, agradável de se ouvir. Eram azeiteiros. Viviam do suor duma mula preta e velha que tinham.

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