quinta-feira, janeiro 25, 2007

OS DENTES DO ENGAÇO ( continuação)

3


- Que grande vendaval, este!?...Santa Bárbara nos valha!?...

Lembro-me, como se fosse hoje, de ver meu pai a exclamar, visivelmente assustado, com estas palavras exactas, pela manhã dum certo dia, já activo, na sua oficina de alfaiate. Completamente cerrada, janelas reforçadas com tudo o que tinha à mão, tal era a força das rajadas de vento.

- O pior é que a vossa mãe foi apanhada no caminho, vem por aí fora, sózinha, com a canasta de pão à cabeça!...- continuava ele aflito. - Vocês ficam aqui que eu vou ver se a encontro. Não tenham medo...


Dissemos-lhe que sim, eu e minha irmã, mais velhinha uns quatro anos, teria aí uns oito, mas ambos estarrecidos. Tivemos medo. Por Ele e também por Ela.

Meu pai saíu. Com uma manta de oleado na cabeça, contra a chuva. Fora oferecida pela padaria distribuidora do pão. Servia para tapar a canasta. Ainda não tinha chegado a era do plástico.

Mal bateu a porta, sem qualquer conversa prévia, fomos ambos, direitinhos, ajoelharmo-nos no quarto deles a rezar a Nossa Senhora de Pedra Maria.
Que o mau tempo parasse e não acontecesse nada de mau à nossa mãe e ao nosso pai. Convencidos e confiados de que seríamos atendidos pela Senhora.
Afinal, se era a Advogada dos navegantes ...como se dizia na catequese, bem mais se justificava, no meu entender, se a tempestade fosse em terra...

Pelo contrário. Parecia que tudo estava a piorar. Agora, era a trovoada. Uns estrondos de meter medo. Aí, comecei a chorar. Desesperado. Era também o pai que estava fora.

Minha irmã procurava serenar-me, como podia.

- Não. Não pode ser!...A minha fé dizia-me, firmemente, que Nossa Senhora não ia deixar que lhes acontecesse nada de mau.

O vento ruminoso uivava, lá fora, como lobos, loucamente. Não havia porta nem janela, sossegada. Todas batiam desesperadas. Parecia que tudo iria, em breve trecho, pelos ares. Até o plátano, ali ao pé, rugia aflito, como o mar.

Lembrei-me da historia do dilúvio terrível de Noé que, havia pouco tempo, me tinham contado na catequese.
- Como é que estará tudo lá fora?...perguntava-me eu .
A chuva, com menos água, para gáudio meu, costumava inundar os campos todos ali atrás. Como se fosse o mar da Póvoa.

Eis que, de repente, batem à porta. Insistentemente. Não se percebia quem era. Com tamanho ruído.

- Quem será? O pai não teve tempo de chegar à Forca. - disse minha irmã, reflectindo na cara o medo redobrado que sentia.

Forca era apenas e é um lugar da freguezia, a caminho da vila.

- Vou ver. - disse eu, avançando, de imediato para a porta da frente.

- Sou eu, o Quim faiate- ouvimos, mais serenados.

Era o empregado-aprendiz da arte de alfaiate. Meu pai tinha acabado de aceitá-lo na semana atrás.
A partir dali, iria ficar a ser conhecido por Quim faiate.

Estava posto à prova todo o zelo e devoção à arte que abraçara. Indiferente ao extremo rigor do tempo, veio sózinho, de madrugada, desde o Xintado, pronto a continuar o seu ofício.

Graças, também à mãe , a senhora Rosa do Xintado, como era conhecida.

- Vais e vais mesmo. - lho ordenou ela, decididamente, acompanhando-o até ao portão do aido. Por nada deste mundo podemos deixar ficar mal o Quinzinho do Padre. Tão grande é o favor que nos faz em ensinar-te.

Vencido e convencido, o rapaz pôs-se a caminho.

Molhado e a escorrer que nem uma galinha à chuva e depenada, o moço de tamancos, em couro rude, a desfazer-se, entrou a custo, corredor dentro. Aterrorizado.

Minha irmã foi logo buscar uma toalha para ele secar, ao menos, a cara e a cabeça. E a roupa?
Também ele descansara, quando se viu em casa do patrão.

O Quim teria aí uns catorze, quinze anos. Mas o tamanho não lhe acompanhava a idade. Era minorca.

- Olha, péga numas calças e numa camisola de meu pai. Enquanto esse mar de roupa seca. Vou já acender a lareira. - adiantou toda resoluta a minha irmã.

Com ele ali, já nem dávamos conta do temporal que continuava enfurecido. Até parecia ser já a forma de nos vermos atendidos nas nossas preces...



4 comentários:

Elsa Sequeira disse...

Olá!!!
escreves muitissimo bem!!!
Parabéns!!!
Vou-te linkar por lá!! Para assim vir cá mais vezes!!!

Muita força pa ti!
:))

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes disse...

Obrigado pelas duas coisas.
Foi bom. Continuarei a seguir-te...com muito interesse e gosto. Força. Sempre.
MG

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes disse...

Obrigado pelas duas coisas.
Foi bom. Continuarei a seguir-te...com muito interesse e gosto. Força. Sempre.
MG

APC disse...

Adorei a história!!!
Vi por aí dois acentos a mais, que isso de pormos a alma a escrever tem dessas desatenções próprias de quem ora pensa, ora apenas sente, mas gostei imenso da forma, do ritmo, e do rasto que deixa após a leitura... Uma ternura de memória!