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Todos dias, ainda madrugada, lá estavam todos à volta do animal, num cerimonial complicado a que depois, com o passar do tempo, tive acesso e me regalava ver.
A alimária alojava-se num compartimento, demarcado por toros de madeira, roubado ao ao canto da loja ampla do rés-do-chão, coberto de palha e tojo, como cama.
Era o centro prioritário de todas as atenções e desvelos da família.
Tornou-se habitual, a qualquer hora da noite, ouvirmos, através das frestas ralas do sobrado comum às duas casas, a voz, rouca do tabaco, do sr. Azevedo, assim se chamava, a perguntar à mulher se tinha deixado de comer à burra...
- Ó home, só agora é que te lembras?...por ti, o bicho já tinha morrido de sede e fome - era a resposta imediata, em tom zangado, da Miquinhas.
Depois, seguia-se o silêncio da madrugada entrecortado pelo ressonar cavernoso, por certo, do marido rezengão.
Não por muito tempo. Por volta das quatro e meia , cinco horas, noite escura, começava a carrega da burra.
Sabía-mo-lo devido à série de zurros que a burra soltava,ihh...oh...ihh...oh... não sei se de gáudio se de revolta. Ou, talvez, a reclamar o feixe de palha seca que era servido de pequeno almoço.
Primeiro, era uma manta de couro que estendiam sobre o dorso, da cabeça até ao rabo.
Sobre ela, havia lugar para tudo. Em poucos minutos, erguia-se sobre ela, um vasto bazar em cascatas, recheado de tudo quanto iria ser vendido, durante o dia, ao longo do emaranhado circuito de caminhos até aos lugarejos das freguezias em redor.
Eram dois cântaros, em zinco de flandres, reluzentes, cheios de azeite, com uma torneirinha de cobre, cada um. Vários canecos mais pequenos, de vinagre e petróleo, muitas medidas de tamanhos crescentes, e uma balança.
Em dois baús de madeira enegrecida, ao comprido, presos com correias grossas de couro gordurento e cravos de latão, iam paus de sabão azul, esfregões e até vassourinhas de piassaba, enfim, toda a drogaria complicada que recheia a dispensa das cozinhas.
Uma vez pronta e arreada, lá saíam os três em cortejo, portão fora, para a volta do costume, diferente em cada dia da semana: o pai, de boné de couro negro muito roçado, na cabeça, até aos sobrolhos, o cigarro já a fumegar e uma bolsa de couro com a trocalhada, a tiracolo. A burra, carregadinha que nem uma jumenta, atrelada ao rapazote, de corneta ao pescoço e o chicote numa mão.
À chuva ou ao frio. Só regressavam pela tardinha ou noite escura, conforme fosse verão ou inverno.
Vinham, quase sempre, entre montes, pelo caminho do Eirado . Ali por perto da casas dos milagres, ou era a burra que pressentindo, relinchava, ou era o rapaz, a morrer de fome, que mandava uma cornetada. Como que avisar a mãe e a irmã de que bem podiam ir pondo a mesa para a ceia. Estavam mesmo a chegar.
terça-feira, janeiro 23, 2007
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1 comentário:
Se me der o endereço electrónico respondo à pergunta feita no meu blog
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