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O Quim-Faiate
Foi aprendiz de alfaiate, na oficina de meu pai. Quase, desde que nasci. Empregado completo, dominando toda a arte, desde pregar um botão até ao segredo do corte de fato. Foi-o até ao fim.
Filho único duma família de lavradores. Composta de três pessoas - o que não era nada habitual - os pais e ele.
O pai era o senhor Pinto, a mãe a senhora Rosa "do Pinto".
A casa deles ficava isolada e escondida no meio duns campos, ali, nas franjas do lugar do Eirado.
Ia-se lá, por baixo de ramadas densas, onde o sol, só entrava a custo, mesmo no pino do verão, através dum caminho, tosco, de carro de bois.
Uma casa de lavoura, como as demais. O caminho ia direito a um grande portal, de madeira grossa, preso a duas paredes altas, em pedra, coberta de musgo, que fechavam todo o aido da casa.
Sobre o portão, um arco festivo, de meia volta, sóbrio, também em pedra, engalanava-lhe a entrada.
Uma aldraba em ferro, pesada, com forma de punho, ao centro e a meia altura, servia de batente, para, em pancadas secas, se chamar os lá da casa.
Se tardassem a aparecer, era porque não estavam ou se encontravam afastados, algures nos campos. Mas havia uma argola, em latão, pendente lá de cima, junto ao pilar direito, ao pé da ramada, presa a um atilho que ia dar longe a uma campainha.
Momentos depois, era certo, um grito franco e apressado, chegava adiante da senhora Rosa, para serenar a pessoa que lhe vinha falar.
- Já vai!?...
Cada vez que eu vinha de férias, do seminário, ai de mim, se uns breves dias depois, lá não fosse vê-los.
Queriam-me como se fosse neto. O Quim-faiate fazia gosto de me levar para lá, desde pequeno.
Podia ser a qualquer hora, mas de tarde, pela sesta, era a melhor altura.
Quando o calor apertava, o gado recolhia ao curral e o casal entretinha-se pela fresca da cozinha ou da loja. Havia sempre que fazer.
À minha segunda ou terceira pancada, parecia adivinhar, a porta do aido abria-se e o vulto duma lavradeira típica aparecia, hospitaleira, à porta da cozinha, sobreelevada uns três degraus, acima do aido.
Saia escura e larga, muito comprida, alegrada por um avental vistoso, com motivos do campo, em tom vermelho e amarelo.
Na cabeça, o lenço de lavradeira, apanhando-lhe a testa e o cabelo todo, sobre as orelhas, vinha apertar-se num laço, de duas pontas, sobre o pescoço, atrás da nuca e sobre a blusa larga em estopa branca.
Das orelhas pendiam duas argolas grossas, bem luzentes, em gema d'ouro.
O rosto vermelhusco era abolachado, olhos piscos, regado já de bastantes rugas, do rigor das jornas.
A voz era doce, duma exacta avó. Nunca o viria a ser...
- Olha quem ali está !?.. -exclamava, visivelmente contente por me ver.
No meio de um grande abraço, reencontrava sempre aquele mesmo cheiro, fragrante e puro que rescende das adegas e dos celeiros, nas casas de lavrador,
ela arrastava-me, depois, para um dos bancos corridos, de cada lado da longa mesa da cozinha.
Com a mesma facalhona, de sempre, talhava um grande naco de broa, presunto e salpicão, com fartura, numa travessa de barro, sobre uma toalha bordada em linho puro.
Uma caneca de quartilho e asa em porcelana, a esbordar da pipa, era trazida pelo senhor Pinto que já chegara entretanto.
Os temas da conversa eram os de sempre. Como vão os estudos? ...Ainda te falta muito para seres padre?...E se te aparece uma rapariga linda que te encante?...
- Oh! Depois de padre...vai ter as que quiser... - atalhava, logo, com a malícia que o iria acompanhar até à cova, o Sr. José, limpando com as costas da mão, o bigode retorcido,já ensopado de vinho tinto. Conservava-o religiosamente, desde os velhos tempos... da juventude. Para gosto e por gosto da senhora Rosa...
- Tem-me juizo, nessa cabeça, Zé...- logo, acudia a avó, em minha defesa.
Só sei que o tempo passava a correr. Sem dar conta era noite.
Enquanto o Quim-faiate, em minha casa, se entregava aos mesmos gestos de agulha ou de ferro a brunir, sobre os fatos domingueiros que tinham de aparecer prontos a estrear, mesmo que fosse preciso fazer serão, pela noite dentro. Até à missa da manhã.
1 comentário:
Olá!!
´
Gostei de te ler!!! :)
Continua!
Bj!!
:))
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