No lado de lá do rio Âncora, junto ao mar, já não há viv'alma.
Todo o dia o mar esteve enfurecido, contra a praia, em pleno mês de Agosto.
Apenas um bando especado de gaivotas se espalha pela margem do rio, vencido pelas ondas que avançam em fúria.
Como elas, não há pescador que se atreva a pescar, aproveitando o rebentar das ondas. Nem à linha.
Os banhistas passaram a tarde a passear-se no terreiro da vila, sobranceiro ao mar, regalando-se com o espectáculo grandioso. Gratuito.
A hora de jantar chamou-os e são poucos os que persistem em disfrutar o fim do dia à beira-mar.
A mim, custou-me largar este cenário, único.
Eis que duas gaivotas se desprendem do bando e levantam voo. Sabe-se lá porquê.
O porte pesado e respeitável dificulta-lhes a subida. Parece que não vão conseguir. O bater largo e esforçado das asas rende-lhes pouco. Só por momentos. Não demorou muito e o par de gaivotas ensaia, vaidosamente, um número de bailado, digno de se ver.
Lado a lado, descrevem volutas, sempre certas e graciosas, ao sabor das ondas do vento, à volta das companheiras em terra. Como que desafiando-as. Estas preferem contemplar, pensativas, a fúria do mar, recolhidas nas asas de corte fino...
De repente, uma das gaivotas precipita-se vertical e vertiginosa sobre as águas tumultuosas do rio.
Mergulha. Demora a vir ao de cima. A outra gira em redor, no plano em que se encontravam. Observando a companheira.
As pessoas à minha beira apercebem-se de que a gaivota está em apuros. A gaivota do ar encurta as suas voltas, sem poisar. Está nervosa. O bando começa a grasnar.
Já se vê. A gaivota está enleada e não é capaz de subir, nas tentativas que vai fazendo, insistentemente. Afunda-se por momentos. Vem ao de cima e fica a planar na água.
A companheira rasa em voos aflitos a desafortunada, talvez encorajando-a.
Um banhista tenta chegar-lhe com uma vara longa, que, abnegadamente, improvisou. Em vão. É curta. As águas estão muito encapeladas e ninguém se atreve...
Há gritos das pessoas a tentar enxutá-la...
De súbito, como que em última tentativa, a infeliz joga todas as suas forças. Bate as asas com fragor. Eleva-se um pouco, sobre o rio. Um pedaço de plástico escorre-lhe numa das patas. Ela avança, rente à água e consegue elevar-se cerca de um metro. É um saco de plástico. Escorre, escorre, copiosamente e a gaivota sobe, sobe...
O saco, finalmente, desprende-se e vai cair na areia da praia.
O par das gaivotas, já, lado a lado, voa...voa...longe, até às ameias negras da fortaleza do Portinho de Vila Praia d'Âncora.
O bando das gaivotas pensativas esvoaçou todo, à uma, e descrevendo umas voltas muito largas, entre o mar e o rio, também foi poisar no mesmo forte...
Foi há uma meia dúzia de anos.
sexta-feira, março 23, 2007
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2 comentários:
Olá Migo!!!
Lindas as tuas gaivotas,, embrulhadas em recordação, Lindo, lindo! Amei!
beijinhos!
:)
muito obrigado e continuação de "luminosa" Harmonia...
Bjs
jg
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