sábado, março 03, 2007

A Folga do Fidalgo




Abre o guarda-fatos:
Tresanda a naftalina.
Graxa preta
nos sapatos,
a melhor camisa
em popelina.

Enlaça o pescoço
na gravata.
Nas calças,
cada perna
à sua vez.

Apruma
as bandas do casaco
e a asa negra
do chapéu.

Alisa o cabelo
e o bigode,
mil e uma
e outra vez.
Muito cheiro
a brilhantina.

Se mira ao espelho
e remira,
à procura
do melhor ar.
Nem diabo
nem d'arcanjo.

Diz adeus ao gato
e adeus ao cão.

E bengala preta
a badalar,
escada abaixo,
uma à uma,
do varadim
até ao chão,
até à vénia
do criado.

Ao volante da charrete,
o motor a soluçar,
lá vai
por campos

e por valados,
espantando o passaredo,
entre toques de corneta
e fumarada de comboio,
do palacete
até à vila...

É a folga do fidalgo,
seu pão de cada dia!...


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