segunda-feira, março 19, 2007

O céu está cheio de caracóis...


Ia sendo uma tragédia!

Cada manhã, ao nascer do dia, a mãe-caracol abria a porta onde dormiam os seus filhotes, dos dez aos três mesitos.

Batia as palmas. Logo assomava ensonada uma cabecita, fora de cada concha, esfregando os olhitos, com os palitos.

- Cada um pegue na sua concha e mochila, e vamos todos passar o dia na montanha.

Um grito de alegria ressou em coro:

- Heh!...heh!...que bom!?...

Num abrir e fechar de olhos, estavam todos fora, perfilados, em linha, como na tropa, à espera da revista que o pai-caracol, fazia sempre, de olhar, só aparentemente, sisudo:
Ele não perdoava uma só ramelita que fosse no canto do olho. Os palitos deviam luzir como faróis e a concha, tão limpa como a folha verde duma alface.

Ai daquele que falhasse!... Ficava em casa até à noite, encarcerado.
Mas não. Todos cumpriam à risca, sem a mais pequena falha.

Em caravana, por caminhos tortos, estreitos e por veredas, monte acima, à frente o pai, em comandante, lá seguia a família inteira, desde a mãe ao mais pequenito. Que era um ladino. Sempre atrás, mas, cheirando e remirando, curioso, tudo e mais além.

Lá ao fundo, corria um regato. De há muito o atraía.

- Um dia hei-de ir lá vê-lo. Cismava consigo, sem dizer nada a ninguém.

E, foi naquela manhã, o caracolito não resistiu. Escondido da família, pôs-se a descer, sózinho, apressado, em direcção ao rio.

Quando chegou, por instantes, ficou a contemplar, encantado, como era possível aquela água toda a correr tão feliz, cantarolando, rio abaixo, sem parar.

Quis vê-la de perto. Cheirá-la com os palitos. Prová-la na linguita.

- Como?...Já sei. Vou subir esta árvore, depois desço por aquele ramo, mesmo até à tona d'água.

Quando estava mesmo a chegar à pontinha do ramo, 'inda tenro, este cedeu e...zumba!...o caracolito caíu à água.

Lá foi aos baldões, rio abaixo, ora para um lado ora para o outro.

O que lhe valeu - ainda hoje, não sabe como - foi ter-se virado de costas. A sua concha tornou-se um barquinho. Lá dentro, bem no fundo, acocorado, ia o miúdo, aflito, gritando por socorro. O mais alto que podia.

- Ai, minha mãezinha! Quem me acode?...Quem me acode?...Vou morrer afogado!?...

Um camponês de idade que andava ao pé a sachar o campo, viu tudo e ouviu. Mas..infelizmente..não pôde fazer nada porque não sabia nadar. Toda a gente deve saber nadar!...

Entretanto a família tinha chegado ao cimo da montanha.

- Onde está o nosso bébé? - perguntou a mãe muito aflita.
Silêncio. Ninguém sabia.

- Às vezes, ele põe-se a olhar muito tempo lá para o fundo, para o rio - adiantou, timidamente, o irmãozito mais chegado, em idade.

Mal ouviu a dica, a mãe pôs-se a correr, serra abaixo. Às vezes, de tanto correr, rebolava, como uma bola.

Chegada ao regato, deu com o camponês.

- Ó meu senhor! Não viu passar aqui perdido um caracolito? É meu filho. Não sei dele.

- Sim. Vi-o a subir aquele arbusto e cair ao rio. Ralhei com ele. Teimou...Já não pude valer-lhe. Depois, eu não sei nadar!...confessou o homem muito atrapalhado e triste, sobretudo, envergonhado de, com a sua idade, não saber nadar...

A mãe-caracol pôs-se a correr, rente ao rio. Ouvidos bem à escuta de algum grito. No fundo do coração, ia esperançada e convencida de que iria salvar o filho.

Rezou a todos os santos caracóis.!
O céu está cheio de caracóis!...Os caracóis não fazem mal a ninguém, não criticam, nem sequer pensam mal, não censuram ...mesmo que devam e sintam razão.

E não é que, no meio de tanto santo, houve um que a ouviu!?... - nunca se deve perder a esperança!...

Não sabia se devia chorar ou pular de contente a mãe-caracol quando deu com o filho encalhado, como um barquito, frágil, na esgalha seca dum ramo morto, junto à margem.

O caracolito chorava e gritava cada vez mais, quando pressentiu a mãe ali ao pé. Com ela perto, ele sabia que já estava salvo.

- Espera aí quietinho. Eu vou buscar-te.

Tão ágil se tornou, aquela mãe parecia um esquilo trepador.

Quando, finalmente, o agarrou bem preso nos braços, deu graças...ao céu. O dos caracóis.

'Inda com mais alegria que arrependimento, o caracolito, chorando, jurou que nunca mais iria trocar a sua família por nada deste mundo...

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